As organizações (também) são ontológicas

Nestes tempos de mudança forçada e acelerada, vale a pena visitar algumas teorizações que podem ajudar à compreensão dos processos e permitir ser agente da mudança e não um joguete da mesma.

Kurt Lewin, no seu famoso modelo, propôs três passos: “descongelar-mudar-congelar” que permitem abordar e interpretar a mudança num modelo interpretativo consistente.

A organização precisa da fase de “descongelação” para que a metafórica, mas nem tanto, rigidez da estrutura possa ser trabalhada. A fase da “mudança” em que a estrutura é reconfigurada e, a ultima fase, “congelação” em que a estrutura volta a assumir uma rigidez intrínseca que tem a sua utilidade, conferindo resistência e fixando a sua capacidade de resiliência. São limitados os contextos em que uma estrutura poderia sobreviver “aberta” após a reconfiguração e seria naturalmente elevada a quantidade de energia a fornecer ao sistema só para o manter equilibrado.

Nestes últimos tempos ouvimos com frequência comunicar em nome de organizações, que funções fundamentais ao nível mesmo da respectiva raison d’être, são ameaçadas de suspensão devido a constrangimentos orçamentais.

Esses agentes e essas organizações, parecem não querer sair duma zona de conforto conceptual em que acomodaram a sua análise, para dar o passo seguinte evidente e indispensável.

Vejamos um exemplo por absurdo: um farol. O farol tem uma razão de existir que é a de assinalar a sua presença (visual e acusticamente) à navegação. Então se, dum momento para o outro deixasse de ser possível ao farol (por exemplo, corte ou suspensão do fornecimento de energia) cumprir a sua função sinalizadora, não seria lícito ao mesmo anunciar a suspensão (sine die) da sua função (evidentemente sem deixar de ser um farol) – já postulamos que o farol não ‘existe’ à margem da sua função.

Seria então necessário “descongelar-mudar-congelar” e repensar tudo, inclusive a necessidade da sua existência e a bondade da sua continuidade, pelo menos enquanto farol…poderia eventualmente vir a ser um hotel de charme (!) O que não pode em caso algum é acomodar-se, passar ao “congelar” antes da mudança, posicionando-se no continente sem conteúdo.

Não tem esta reflexão como objectivo tomar partido sobre a bondade, ou não, de muitas das alterações a que estamos a assistir, mas apenas realçar a impossibilidade (lógica e coerente) de aceitar a (meia)mudança, a que se atravessa face ao fim último da organização, sem continuar o processo até ás suas últimas consequências.
Nas últimas semanas temos lido os anúncios mais mirabolantes…

…recentemente era um hospital termal (centenário) que anunciava o fim dos tratamentos termais por ausência de orçamento para a análise das águas!…

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o caminho de ferro e o bom senso – no regional até ao Caia…

Ora aí está uma boa notícia! Bem dizem os chineses que ‘crise’ e ‘oportunidade’ tem tudo a ver… Bom senso também!

Importa agora equacionar uma política inteligente para o caminho de ferro. Como país, não precisamos de alta-velocidade, mas não podemos continuar de costas voltadas para a ferrovia!

Venham mais boas notícias primaveris!

A propósito: custe o que custar essa ‘indemnização’ vai ser tostões comparado com o sorvedouro que seria a RAVE…

Governo abandona a alta velocidade “definitivamente” – Economia – PUBLICO.PT.

Vamos no regional até ao Caia!

O Tribunal de Contas recusou o visto ao contrato sobre a concessão do projecto, construção, financiamento, manutenção e disponibilização de infraestruturas ferroviárias no troço Poceirão-Caia.

Trata-se, para os mais distraídos, da linha de alta velocidade que deverá ligar NADA, com coisa NENHUMA, uma vez que como é sabido não existe ainda solução para o trecho de Lisboa ao Poceirão e o governo espanhol, ponderadamente, suspendeu a construção da linha em Espanha.

Recorde-se que este projecto tem tal interesse (!) que mesmo a troika não insistiu para que fosse suspenso/eliminado. É que mesmo que o país se livre algum dia deste drama da dívida pública, com um projecto desta dimensão e prolongamento no tempo, não se livrará nunca. Já dizia uma figura conhecida (!) que as dívidas são para se ir pagando…

Entretanto, a grande construtora nacional (!) que ganhara o concurso, avisa já que “terá direito a ser paga de todos os custos e despesas incorridos com a realização das actividades e investimentos para a prossecução do contrato, […] e com a resolução atempada de contratos”, dá para imaginar as indemnizações chorudas que a construtura se prepara para pagar às numerosas empresas de cedência de mão-de-obra, é assim que se trabalha nas grandes obras públicas, bem como a todos os trabalhadores, de certo também muitos que estão legais no país, pela não prossecução das respectivas intenções e contratos de trabalho.

http://expresso.sapo.pt/tribunal-de-contas-chumba-tgv-poceirao-caia=f713567#ixzz1pmq4nkKn

Aeroporto de Lisboa: Empate técnico 1 a 1.

Dia de novidades no aeroporto de Lisboa. Da mesma forma como há alguns anos a ANA decidiu chutar os voos domésticos para o então novo terminal 2, decidiu hoje trazê-los de novo para o terminal 1.

Agora,  como então, o interesse não foi a eficiência ou a comodidade dos passageiros, mas um negócio feito com a companhia de baixo custo Easyjet. Como já aqui se escreveu é uma medida que seguramente trás como justificação a necessidade de diferenciar serviços, designadamente acesso a mangas de embarque/desembarque inexistentes no terminal 2, associando a oferta de baixo custo e a subsidiação de companhias aéreas, ao menos-conforto dos passageiros. O próximo passo, será seguramente acabar com a graciosa volta de autocarro para embarcar os passageiros em aeronaves que se encontram a 50 metros do edifício e a criação dos não menos graciosos corredores entre blocos de cimento.

A outra novidade, também não se prende com o melhor interesse do cliente.

Agora, no terminal 1, passada a segurança, um inconveniente incontornável nos dias de hoje, quando o cliente passageiro pensa que está finalmente quase a chegar à porta de embarque, verifica que é obrigado a fazer um périplo por dentro das áreas comerciais, cruzando-se e cotovelando-se com todos as outras criaturas que estão entretidas a comprar os vinhos e os perfumes do chamado duty-free.

É bem verdade que não se trata de uma invenção da ANA, estranho seria. Trata-se duma ideia peregrina já existente em vários aeroportos europeus de Bruxelas a Viena que, não contentes com o negócio que aí realizam, se acham no direito de incomodar os clientes (sim, clientes, que bem elevadas são as taxas cobradas pela utilização das instalações aeroportuárias!) obrigando-os a caminhadas desnecessárias para melhor os expor à mercadoria…Que um centro comercial, onde vai quem quer, tem concorrência e a entrada é gratuita o faça, pode-se entender, agora que uma empresa com uma concessão de serviço publico em regime de monopólio, siga o mesmo caminho, já não me parece tão evidente.

Empate técnico 1 a 1.

Lições do plat pays?

Escrevo esta nota a bordo do Thalys (TGV) de Antuérpia para Paris. Enquanto a paisagem se desdobra ao meu lado, lutando teimosamente contra as ultimas neblinas da madrugada não posso impedir-me de pensar nas diferenças, subtis, entre cada um dos territórios que vou atravessando velozmente. As diferenças, a bom rigor, são tão subtis, que não se detectam! Todavia vou atravessando 3 dos quatro territórios que compõem o pequeno país que é a Bélgica, nas imortais palravas de Brel, o ‘plat pays’.

Para governar este território, sensivelmente 1/3 de Portugal e igual população, os belgas conseguiram a proeza de montar uma estrutura administrativa com 5 governos o que os coloca nos primeiros lugares do pódio do funcionalismo com 14 habitantes por funcionário público!

Dir-me-ão que eles têm recursos para tal. Pois não, não têm. Têm um deficite que, antes do advento das mega dividas publicas era já descomunal e naturalmente não diminuiu com as turbulências dos últimos anos. Esta estrutura complexa trouxe-lhes, mais qualidade de vida, mais eficiência, mais sustentabilidade, mais equidade? – afinal os indicadores a que efectivamente vale a pena atender – não! Estão hoje, como em qualquer momento na ultima década, à beira duma ruptura que apenas ainda não aconteceu, porque é poderosa a inércia das sociedades abertas e demasiado complexa a separação do bolo comum (o que resta), nomeadamente a segurança social. Talvez que o recente período de 530 dias sem governo tenha ajudado a alguma reflexão…

Em Portugal temos esse discurso recorrente da regionalização. Alguns gostariam mesmo (e estou seguro que o conseguirão) transforma-lo num desses temas fracturantes, à Europeia, que será votado tantas vezes, quantas as necessárias para que o eleitorado se canse e a intelligentzia consiga o seu desiderato.

À nossa escala temos já um histórico de regionalização. Em mais de 3 décadas de regime democrático temos 2 experiências das quais tirar lições: uma que funcionou (indubitavelmente com os seus aspectos mais e menos positivos) e outra que sobressaiu, pelo mais completo e desastroso falhanço. Dispendioso também. Creio aliás, que lhe devemos o facto de não ter ainda o resto do país embarcado numa aventura regionalista de consequências imagináveis.

Os campos da Região de Bruxelas, dão agora lugar aos campos da Valonia  mas a passagem das carruagens sobre as linhas de alta velocidade é tão rápida que torna imperceptíveis ao olho não treinado as transições de administração. Felizmente que cada belga tem cinco governos e 14 funcionários para lho assinalarem!

A náusea e as redes

Numa entrevista muito recente, Guy Kawasaki [www.guykawasaki.com] autor de sucesso especialista em comunicação empresarial, redes sociais e marketing, questionado sobre como promover a sua marca e você mesmo, sem se tornar nauseante, respondeu que o que causa a sensação de náusea é promover alguma coisa que é uma treta (crap).

Revi-me completamente na asserção do entrevistado – o que não admira uma vez que é um autor e fazedor de opinião que habitualmente sigo.

O que se está a passar com o êxito das redes sociais é que as pessoas, toda a gente, sente uma necessidade urgente de comunicar, postar, ‘gostar’, interagir, já tenho até visto nalguns sítios o convite insidioso ‘seja o primeiro a interagir!’. Aliás, o insuspeito ‘Público’ até tem um sistema de pontos para os comentários dos leitores (seguidores?!).

Acontece que nem toda a gente tem uma opinião, um comentário, algo a acrescentar. Como resultado destas duas forças contrárias, as pessoas, ‘gostam’ (de coisas inenarráveis, diga-se), reblogam, recomentam. É esse fenómeno que faz a felicidade das redes sociais e enche as caixas de correio dos facebooks desta vida.

Fulano viu, fulano gostou, fulana comentou. Uma vez, duas vezes, ‘n’ vezes. Qualquer banalidade, qualquer dislate ou sensaboria. A náusea que fui agora encontrar na entrevista de Kawasaki.

As redes sociais são um excelente suporte de marketing. Mas tem de ser um marketing sério (eficaz). É barato e ubíquo, mas não pode ser sustentado em curiosidades anedotais e muitas vezes até postadas automaticamente por softwares especializados que permitem encher o depósito com banalidades e soltá-las de forma temporizada fazendo o receptor, alguns receptores 😉 sentirem-se como vítimas da tortura da gota chinesa.

O objecto da comunicação não pode ser uma treta (crap). Há empresas, micro-empresas, poucas, que estão já a utilizar as redes sociais de formas criativas, com conteúdo e inteligentes. Por exemplo, pastelarias tradicionais que tuítam que acabou de sair uma fornada, hostels que tuítam o serviço de pequeno-almoço ou a partida eminente de uma excursão e até, vendedores itinerantes (cachorros, gelados, etc.) que tuítam a localização actual.

Quando foi a última vez que lhe apareceu no mural ou recebeu uma notificação do FB, efectivamente útil ou interessante?

Antes de ontem, na sequência de atrasos monumentais nos comboios Eurostar, uma modelo (!) britânica, Poppy Delevingne (espero que saibam quem é, porque eu confesso que não faço a mínima…), tuítou para dez mil seguidores no Twitter que estava ‘delirantemente fatigada (?!)’ (“deliriously tired“) depois de uma viagem de comboio…

as novas guerras do ópio

Estas coisas do futebol, nunca deixam de me surpreender – pelas piores razões, naturalmente.

O Brasil, país anfitrião do próximo campeonato do mundo, tem um diferendo complicado com a FIFA (parece que é o empório que controla os negócios do futebol a nível mundial).

Há quase dez anos a esta parte, a lei brasileira não permite o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol. A lei foi promulgada, por razões de saúde pública mas principalmente com o objectivo de limitar os ‘excessos’ nos recintos desportivos. Até aqui, nada. Concorda-se ou discorda-se – é a lei dum país independente e por acaso um grande país.

Bom, chega a FIFA e exige que a lei seja mudada para permitir o álcool nos estádios!

Para já está a polémica instalada e não se ouvem vozes de legisladores brasileiros a apoiar essa mudança, muito pelo contrário. O mais recente crítico foi Romário, ele mesmo ex-campeão do mundo e agora congressista em Brasília.

É evidente que com a pressão da FIFA, que hipoteticamente poderia levar a campeonato para outro país (hipoteticamente!) um país soberano acabará por vergar-se aos interesses do futebol.

Em Portugal conhecemos bem a estória e não começou com o Euro 2004.

O mundo muda, mas muito devagarzinho, foi há pouco mais de século e meio que a Inglaterra declarou guerra à China pelo direito de prosseguir o seu rentável import-export de ópio.

 

Subsidiação 2.0

Foi ontem apresentada, na BTL, a Iniciativa.pt 2.0 [a baptizar as iniciativas não há quem nos ganhe!]

A ‘iniciativa’ apoia-se em pressupostos do PENT original, retomados nas suas revisões posteriores.

Em relação às ligações aéreas (cf. acessibilidades aéreas) continua a advogar o modelo de subsidiação disfarçada, do negócio das companhias aéreas.

Mais uma vez, a ideia não tem nada de novo e foi glosada à exaustão, no Algarve e também noutras zonas do país, com resultados que dificilmente aderem aos pressupostos teóricos subjacentes.

Dois exemplos históricos breves. Há alguns anos, por ocasião da renovação do chamado serviço público para as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, para além das incontornáveis TAP e SATA, apareceu uma companhia privada que se propunha explorar a rota sem subsídio do Estado. Depois de muito (ou nem tanto) ponderar, foi decidido que a proposta herética deveria ser excluída porque a empresa não teria conseguido demonstrar a necessária solidez, sendo as rotas entregues às 2 empresas públicas. Um par de anos volvidos a profecia confirmou-se. A tal empresa encerrou as operações – presumo que se aplicaria a qualquer ramo de actividade: se sistematicamente não contratualizarmos com algum operador por suspeitas (fundadas ou não) de que possa não ser sólido, mais tarde ou mais cedo esse operador tornar-se-á insolvente. É mutatis mutandis a razão porque a banca tanto teme as ‘corridas aos levantamentos’. Entretanto as 2 empresas ganhadores continuaram solventes – aliás, continuarão solventes enquanto os portugueses pagarem impostos.

Há mais anos ainda, uma empresa privada começou a fazer voos domésticos no continente. Rapidamente, a transportadora incumbente, começou a fazer tarifas concorrenciais, naquelas rotas cuja incontornável ausência de rentabilidade tão amargamente lamentava e conseguiu absorver a concorrente menor. Não, não falo da Portugália. É uma história mais antiga, chamava-se LAR.

Agora, já passado o pico do boom das low-cost insiste-se na subsidiação das rotas.

A julgar pelos números ontem divulgados, são 15 milhões de euros a ‘investir’ (chama-se assim apoiar de forma indirecta a operação comercial das transportadoras aéreas), que deverão resultar em 1.5 milhões de passageiros nos aeroportos nacionais. Tomando por boas estas projecções (!) significa que cada passageiro desembarcado será subsidiado em, no mínimo, 10 euros, ou seja, quando se introduzem portagens por todo o país (creio que invocam o principio do utilizador pagador) decide-se subsidiar as viagens ‘low cost’ (como as designações podem ser criativas!) dos clientes do transporte aéreo.

Em relação ao Algarve, onde o turismo doméstico e os clientes espanhóis (se bem me recordo o PENT falava até dum produto ’touring’!) têm tanta importância, considera-se plausível a imposição da taxa (portagem) porque afinal só anda de carro em auto-estrada quem quer e tem posses, mas entretanto subsidiamos as viagens aéreas dos mesmos cidadãos!

Agora bem a sério, onde estão os números que demonstram a lógica desta estratégica e o retorno daquele investimento? E a comparação com os eventuais impactos negativos ao nível dos clientes em automóvel, aqueles que têm que optar por uma das alternativas bizarras que se desenvolveram para pagamento das portagens na A22 por parte dos automóveis estrangeiros?

 

http://www.publituris.pt/2012/03/01/iniciativa-pt-2-0-para-mais-50-rotas-e-15m-de-passageiros/