O canibalismo e ‘a fome da sobremesa alheia’*

Alguns sites publicaram ontem declarações da presidente da Direcção da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), em que terá dito que, “A forma massiva e desregulada como os hostels têm brotado em Portugal vai levar a uma situação em que, num futuro próximo, vão começar a praticar canibalismo uns com os outros”. Acrescentando ainda que “é urgente que a portaria que regula a abertura deste tipo de alojamento seja alterada”, a fim de evitar que “haja um crescente número de hostels sem as mínimas condições”.
A declaração, a ter existido e nos termos divulgados, merece uma análise cuidada.

Vejamos: uma associação de hoteleiros está preocupada com os eventuais maus resultados futuros de outros operadores (concorrentes) e reivindica uma intervenção governamental (legislação) para aprimorar (por imperativo legal) a oferta daqueles concorrentes.

Pausa para um sorriso.

O fenómeno é profundamente português e tem origem na Idade Média: isto de cada profissão, cada actividade, pretender limitar a entrada de concorrentes. Nos últimos anos proliferaram as ‘ordens profissionais’ com o objectivo (duplo, digo eu) de auto-regular a profissão (mais ninguém tem de interferir nos respectivos assuntos internos) e limitar o acesso a novos players.

Este é um caso típico. Temos uma associação dum determinado sector, preocupada, não com a situação ou qualidade das prestações dos respectivos associados mas, antes com o facto de estarem a aparecer outros players, obviamente com sucesso, fora do enquadramento do respectivo sector.

Não vemos aquela associação preocupada com o facto de existirem unidades hoteleiras de dimensão, abrigadas à figura legal do ‘Alojamento Local’, não vemos preocupação com o facto de uma classificação hoteleira ser atribuída ‘vitaliciamente’, algumas unidades já terão esgotado várias vidas, nem com o nível de preços que vemos publicitado nos sites das principais OTAs e que, só por si, deveriam ser objecto de análise, não para reprimir, mas para entender o modelo de negócio de alguns desses hotéis e daí tirar as inevitáveis conclusões.

‘Hostel’ está na moda. Na verdade, não tem nada de novo, é um produto com cem anos de existência, tantos quantos os que decorreram desde a criação da primeira Pousada de Juventude na Alemanha. Simplesmente, hoje, qualquer ex-pensão, em Portugal mas não só, opta por um fácil e económico exercício de re-branding e coloca na porta a placa de ‘hostel’.

A legislação permite-o e bem! Não é vocação do Estado, administração central ou local, pré-estabelecer se deve existir ou não um tapete anti-derrapante ao lado da cama, ou uma mesa credência com telefone, algures no quarto (são exemplos concretos do que exigia há uma década a legislação nacional, para um hotel de classificação máxima!). O Estado tem de garantir aos cidadãos clientes dessas unidades, que a instalação tem condições de segurança (estrutura, salubridade, medidas activas e passivas anti-incêndio) e pouco ou nada mais. A definição do produto e a sua sustentação ou falhanço são cometimentos do mercado. E o mercado, é hoje rápido, como nenhuma administração pode alguma vez ser. Os sítios de avaliações e recomendações (por exemplo, tripadvisor) e as respectivas secções dos sítios de reservas das OTAs, regurgitam de avaliações e comentários que dão poder (empower) aos clientes para uma escolha cada vez mais avisada.

Vem a propósito citar o sucesso enorme que muitos desses hostels têm tido internacionalmente nos últimos anos e o quanto eles se tornaram um produto e um modelo de negócio de referência internacional e de prestígio para a hospitality industry portuguesa.

São muitos ou demasiados? Não tive oportunidade de fazer um estudo avaliativo, talvez. Agora pergunto, e hoteis? Não haverá zonas/destinos portugueses porventura com excesso de unidades? Não haverá demasiadas unidades licenciadas há demasiadas décadas e a desesperar por uma vassourada quando não uma bola de demolição?…

 

(*) Verso de Alberto Caeiro: […] E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer. Ou se é só fome da sobremesa alheia. […]

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