A oferta de actividades: disneyficação do produto turístico

La Fortuna, Costa Rica, uma pequena cidade anichada na base do vulcão Arenal, nem sempre se chamou assim. Há uma décadas chamava-se Burio. Um dia, o Arenal, que dizem está no top 10 ou 20 dos vulcões mais activos, despertou mal e a lava levou vários povoados. Do lado oposto a La Fortuna, indemne, que assim foi rebaptizada.

Não tem nada de especial. É simpática, tem muita juventude. Em termos de produto é um caso muito interessante.

É interessante pela capacidade de mise-en-valeur, de operacionalização de elementos ‘banais’.

Creio que essa é a grande debilidade do produto em Portugal.

O Arenal, em beleza, não chega aos calcanhares do Pico, visto da Horta ao entardecer, com uma pincelada de neve, qual chatilly, sobre o cone vulcânico. Cataratas temos maiores e menores, que me recorde, 3 no Algarve, algumas brutais no Alto Douro e em Trás-os-Montes, de novo nos Açores e, na Madeira. Em nenhuma delas cobramos 10$ para visitar! Mas poderiamos, basta embrulhar o discurso ecológico e explicar que as receitas são para o desenvolvimento sustentável e manutenção do sítio natural 😉

Temos grutas (muitas no Algarve) por todo o país, calcárias, areníticas, vulcânicas, temos passeios de jeep, de burro, de carroça, a cavalo. Temos os descontextualizados tuk-tuk em Lisboa, as descidas de rio. Tudo. Temos tudo.

Não temos lugares onde um segmento mais jovem e activo chega e é solicitado para uma oferta muito bem organizada, muito bem vendida, com pacotes combinados, com um marketing excelente assente na imagem de gente (muito) jovem a divertir-se e que podem ser feitos em qualquer dia, às 0800 às 1000 às 1100, quando o cliente quiser.

Tive muitas vezes esta discussão, em muitos lugares e não só em Portugal. Invariavelmente os colegas e amigos locais insistiam que não, que há muitas ‘coisas para fazer’. Porém quando lhes ripostava, vamos então fazer barranquismo (canyoning), por hipótese, no Pego das Pias, em Odemira. “Ah! Pena não teres avisado ontem, na semana passada, mas vou fazer uns telefonemas, há-de se arranjar”. E arranja. Arranja-se sempre. Mas a chave do sucesso é ter propostas activas, operacionalizadas, calendarizadas, sempre, ali prontas a retirar da ‘prateleira do ponto de venda’ e seguir…

Claro que os barqueiros em Benagil, estão sempre prontos para ir mostrar as grutas, os quiosques na Praça do Mar em Ponta Delgada, têm os horários de saída dos passeios de observação de cetáceos e, um registo dos avistamentos da véspera, e as gravuras de Foz Côa podem ser reservadas marcando de véspera (!) mas não é a mesma coisa.

O que falo não pode nem tem de ser feito em toda a parte, como é evidente, mas lendo o mercado há que perceber quais são os pontos naturais de partida e articular a oferta assim mesmo: Off the shelve. One stop shop!

Então, como aqui, ‘la fortuna’ é de quem a quiser encontrar…

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