OTA: o mal maior (?)

extração de rochas

Já aqui abordámos a problemática da moderna distribuição em hotelaria, designadamente a relação entre hoteleiros e OTAs (agências de viagens online / portais de reservas).

A hotelaria nem sempre soube e nem sempre pôde, encontrar o rumo certo perante o cerco constante, primeiro dos TOs e mais recentemente das OTAs.

Que as OTAs não têm uma relação simbiótica com a hotelaria, pese embora a sua retórica ‘cooperativa’, é uma evidência. Queremos hoje discutir, para além de saber se são um mal necessário ou um mal desnecessário, acções, pequenas e grandes que a hotelaria vem realizando que reforçam a sua dependência das OTAs.

Vejamos alguns exemplos que põem a nu as ideias expendidas no parágrafo anterior.

Sobre a retórica cooperativa:

A OTA comunica com o hoteleiro mencionando o nosso ‘cliente comum’. Justamente. Porém, experimentem pesquisar um produto hoteleiro num dos portais líderes do mercado. O potencial cliente, seleccionou a cidade, viu as ofertas (não discutiremos hoje a ordenação da mesmas!) e está a visualizar uma propriedade. Enquanto lê os comentários doutros clientes e as características da unidade, encontra mensagens específicas da OTA: ‘a propriedade x tem preços menores’, ‘a propriedade y tem uma localização melhor’, ‘a propriedade z tem uma classificação superior’… Então? O ‘nosso cliente comum’ estava livremente (pese embora as promoções, as ordenações e tudo o mais) a fazer a sua escolha e subitamente já não é ‘nosso’, nem ‘comum’, é só da OTA que não hesita em canibalizar o negócio dos seus parceiros para solidificar o seu próprio negócio.

Sobre a actuação do hoteleiro:

Recentemente fiz reservas em duas unidades distintas. Pesquisei nos sites e depois contactei-as directamente. Ambas agradeceram expressamente a preferência e a opção de contactá-las directamente. Acertámos as condições e reservei. Com uma delas ainda troquei mais algumas mensagens sobre serviços conexos que a unidade me propunha. Nos dias aprazados apresentei-me para check-in e nenhuma das duas contava comigo! Uma delas oferecia um ‘quarto’ que parecia um pequeno closet em alternativa à ‘vista lago’ oferecida anteriormente e contratada, na troca de mensagens. Face à recusa do cliente, recomendou preguiçosamente uma unidade vizinha. Na outra, também não tinham quarto. Algum ‘vírus’ havia apagado os dados da minha reserva. Não estavam a contar comigo. Lamentamos, diziam. Nós sabemos e o cliente sabe que se a reserva tivesse sido feita através duma OTA o hoteleiro não teria ousado dar estas respostas ao cliente. Ter-se-ia apressado a encontrar uma solução alternativa condigna, porventura superior e pedido mil desculpas ao cliente que, respaldado pela OTA receberia a notícia e a alternativa com a inflexibilidade que nunca tem quando quer cancelar, no próprio final de tarde, aquela reserva não modificável confirmada com semanas de antecedência…

Conclusão:

Muito do êxito da OTA é sustentado por comportamentos destes, infelizmente comuns, que geram no cliente a ideia falsa de que uma OTA é mais confiável que um Hotel.

Temos muito trabalho a fazer, de rigor das nossas operações e de esclarecimento dos clientes, se algum dia pretendermos inverter a tendência que faz esmagar as margens de quem conceptualizou e presta o serviço, em benefício de quem intermedeia conhecendo bem as debilidades do sector e apostando, cada vez mais, numa narrativa simpática e cooperativa que só pode cativar a atenção e preferência dos clientes.

Fábula sem bichos:

Para fazer a extracção de rochas para a construção, os romanos utilizavam um sistema simples e inteligente. Procuravam uma pequena fissura e nela entalavam uma cunha de madeira. Em seguida asseguravam-se de que a madeira era mantida molhada, de modo a inchar aumentando a fissura inicial até que o bloco se destacava da pedreira!…

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quanto é ‘low-cost’?

Novo título do Publituris, na lógica da linha comunicacional de alguns players do mercado (turismo/hotelaria) que com perseverança propugnam a sua visão mirífica de um mercado menos complexo e mais regulado, sugere-nos (novo) comentário.

Desta vez, sob o título aparentemente inocente ‘SERÁ QUE PORTUGAL ESTÁ A FICAR UM DESTINO LOW-COST?’ o principal jornal do nosso trade turístico cita a Associação da Hotelaria de Portugal, para glosar o tema do excesso de oferta e não explicitamente, como doutras vezes (cf. Já cá estou! Fechem a porta!) a necessidade de regulação da oferta hoteleira como resposta à maçadoria dum mercado dinâmico que teima em escapar às projecções das consultoras e à bondade de muitos planos de negócio.

Os dados são fornecidos pelo Tourism Hotel Monitor (primeiro semestre).

O crescimento de 7,3% do RevPAR (receita por quarto disponível) deve-se “mais à subida da ocupação do que à subida do preço médio”. A evolução para o período homólogo:

+ 2,95 p.p. na taxa de ocupação => 56,7%

+ 1,7% no preço médio => 63,17

+ 7,3 no RevPar

foi francamente positiva mas, lamenta-se no artigo, aquém dos valores (róseos) de 2008 (ocupação 61,73%, preço médio 63,57 euros e RevPAR 39, 26 euros).

O título da matéria utiliza a expressão ‘low-cost’ de forma pejorativa. Sempre agradou a parte do trade e a algum discurso oficial a associação descabelada do indicador preço ao indicador qualidade.

Alguns recordarão, há algumas décadas, quando um secretário de estado do turismo cunhou mesmo a expressão ‘turismo pé descalço’ e se legislou a verificação nas fronteiras dos recursos transportados pelos turistas. No longo período que se seguiu, integrámos todos no discurso sobre a promoção turística a palavra ‘qualidade’. Um bom texto sobre a promoção deveria ter um rácio de pelo menos uma ‘qualidade’ por parágrafo…!… freudiana insegurança.

Hoje, felizmente, a situação é diferente. Os mercados têm um dinamismo brutal, Lisboa e Porto ficaram na moda e a oferta recria-se em novos produtos seja no alojamento, como na restauração ou na animação. Nunca as nossas grandes cidades tiveram tanta e tão diversificada oferta. Alguma excelente, alguma menos boa, alguma que o mercado a seu tempo se encarregará de eliminar, mas toda dinâmica, vibrante e impulsionando a imagem e as experiências que cada vez mais clientes procuram nos nossos destinos.

O usar ‘low-cost’ preconceituosamente como uma etiqueta negativa, revela miopia na análise do mercado e a incompreensão das dinâmicas do fenómeno turístico actual.

A propósito, quanto é ‘low-cost’? Recorda-se de tarifas aéreas de 4.99€ há dois ou três anos? A mais recente campanha da companhia líder nesse segmento de mercado publicita agora as suas melhores ofertas transeuropeias ‘desde 19.99€’! O conceito líder de ‘low-cost’ aumentou 300% em 3 anos! Foi assim no seu negócio?

Um bom trabalho tem vindo a ser desenvolvido e os resultados estão aí para todos vermos.

Vivemos um período particularmente desafiador do mercado turístico.

Trata-se dum momento de grande exigência (profissional, também).

É um privilégio ser profissional de turismo hoje!

os quartos de marca branca

DBLB branco

Já aqui escrevi sobre a distribuição do produto hoteleiro, no passado e hoje, e como o revenue management se transformou na matriz de tudo o que se faz em hotelaria.

São áreas que não estando muito expostas ao grande público, vêm evoluindo um pouco na sombra.

Há dez, quinze anos atrás, os supermercados começaram timidamente a introduzir as ‘marcas brancas’. Na altura o público português olhava os produtos brancos com desconfiança e, dizia-se, a taxa de penetração era muito baixa comparada com a de outros países europeus.

Hoje, a situação mudou radicalmente. Em muitas linhas de produtos, na grande distribuição, a ‘marca branca’ é já maioritária. Houve uma profunda alteração na percepção por parte do cliente: de algum modo, a ‘leitura’ do produto branco como não confiável (pela ausência de brand subjacente), foi substituída por uma nova leitura em que o cliente percepciona o produto branco como ‘sustentado’ na marca/reputação do distribuidor (regra geral uma grande superfície).

Este fenómeno desenvolveu-se a tal ponto que alguns grandes distribuidores trabalham já uma estratificação da marca branca: a marca branca a preço de entrada, a marca branca standard e a marca branca superior ou gourmet.

Vem esta reflexão sobre o retalho, a propósito da situação que se vive ao nível do produto hoteleiro.

Cada vez mais as OTA impõem-se como o canal único de distribuição. E como só as OTA têm o músculo suficiente para garantir uma robusta presença nas pesquisas online o site do hotel vai ficando mais distante dos primeiros lugares e menos visível. Poucos podem investir o orçamento necessário para conseguir intervenções ao nível do SEO (search engine optimisation) capazes de contrariar a ubiquidade das principais OTA.

Uma vez reunidas na plataforma comum proporcionada pela OTA, as ofertas dos diferentes hotéis aparecem comoditizadas, tipificadas e indiferenciadas. Com as seriações standard baseadas em critérios comerciais, o produto hoteleiro está então transformado num produto de ‘marca branca’. A marca branca do respectivo distribuidor online. O branding passou a ser o da OTA e o produto hoteleiro é agora quase completamente indistinto aos olhos do cliente. Como já comentámos em post anterior fecha-se agora o ciclo possibilitado pelos canais online: a euforia inicial do suporte fácil e barato, foi sendo substituída por uma dependência crescente, que hoje é para a maior parte dos players menores, total.

As OTA fazem-se mais agressivas, mais incontornáveis e introduzem novas condições leoninas. Ao hoteleiro continuam a apresentar-se opções, tal como antes, não são evidentes nem muito menos fáceis. Mas existem.

Ao conhecido aforismo do marketing hoteleiro, localização, localização, localização, deve agora seguir-se, devidamente entrosado, diferenciação, diferenciação, diferenciação. Só através da diferenciação da oferta ela poderá sobressair num catálogo bidimensional em que todas parecem iguais e até os preços tendem a confundir-se.

A criação de novos produtos ou de produtos percepcionados como novos, alicerçados num atendimento absolutamente irrepreensível, é a única solução para o hoteleiro inconformado com a sistemática erosão das tarifas. Mas isso já será o objecto de outro post…

basta bom senso, obrigado!

IKEA4

No ano passado, creio que no âmbito da feira ITB, foi feito um estudo, inquirindo largas centenas de hoteleiros internacionais, sobre a utilização das novas tecnologias na indústria.

Quando falo de ‘novas tecnologias’ não estou naturalmente a referir-me a SEO, wifi, payperview tv ou ao fim da central telefónica com cavilhas! Refiro-me a um certo tipo de ‘inovação’, que está para os serviços, como os ‘derivados tóxicos’ estão para os mercados financeiros.

A conclusão do estudo que referi (naturalmente longa e merecendo um comentário mais aturado) era que muitas ‘inovações’ são adoptadas, não porque façam sentido em termos de eficiência, racionalidade de RH, economia ou (pasme-se) porque são uma aspiração ou expectativa dos clientes. A razão última apontada maioritariamente pelos profissionais inquiridos era que a adopção se fazia porque era possível! Porque a tecnologia o permite: adopta-se.

Também no ano passado, havia uma instituição bancária no Reino Unido que apresentava como promessa da sua extensiva campanha no metro Londrino: atendimento telefónico por pessoas a sério. Acrescentando que não tinham daqueles menus telefónicos com dezenas de opções, não tinham publicidade enquanto o cliente (des)espera em linha e, que não usavam call-centres que tanto lidam com os serviços bancários/financeiros, como com a linha de apoio do nosso seguro de saúde, ou a reserva do pacote de férias nas Caraíbas!

Ontem tive um insight!…

Quando pesquisava algo no sítio Ikea, resolvi colocar uma questão ao atendimento virtual…

Perguntei à Anna!

O pequeno boneco agitou-se enquanto eu teclava, depois a Anna assumiu um grafismo que deveria supor reflexão (estou a especular), e finalmente veio a resposta:

Desculpe mas de momento estou a estudar para actualizar o meu conhecimento. Por favor tente mais tarde. Obrigada!

Precisa-se mais bom senso na adopção das tecnologias, precisa-se mais respeito pelo cliente no atendimento! Seja em que canal for.

 

já cá estou! fechem a porta!

urss_planoquinquenal

Uma tendência comum a todas as actividades profissionais e também às actividades empresariais, talvez a única, é a leitura simplista da realidade que se acolhe ao conforto dum contexto menos complexo e à conveniência que se pensa decorrer, da colocação de barreiras à entrada de novos players num mercado.

Nas profissões, esta tendência sustenta-se na criação de associações, de certificações, de ordens, que de algum modo, sob a argumentação da qualidade e do rigor, protejam os incumbentes do incómodo da entrada de novos participantes.

Nas diferentes áreas de negócio, de uma maneira ou de outra, a situação é semelhante. O mercado ingloriamente não entende as boas intenções (e praticas) dos instalados e ingenuamente corre atrás das novidades, injustiçando aqueles que, ao longo de anos, se dedicaram à sua satisfação.

Naturalmente que no actual contexto, de crise económica e financeira e de crise de valores, estes posicionamentos têm um apelo acrescido.

Invariavelmente, começa-se com uma declaração que traga à baila o liberalismo, que se condimenta em seguida com preocupações modernas do tipo, qualidade, sustentabilidade, e se possível qualquer coisa sobre o verde e o social.

Sugerir a suspensão da 'emissão de licenças para novos hotéis (...) Até que o preço médio e a taxa de ocupação atinja um patamar aceitável de rentabilidade'.  É um péssimo excelente exemplo da tendência a que aludo. No mesmo artigo editorial, recentemente publicado no principal jornal nacional do sector do turismo,  continuava-se com esse constructo referindo que 'Em causa estão muitos milhões de euros de investimento, baseados em pressupostos que são diariamente desvirtuados pelo próprio mercado'.

Sendo estes desejos expectativas legítimas dum sector, vale a pena reflectir sobre a lógica e a 'sustentabilidade' de projectos e investimentos que serão 'desvirtuados pelo próprio mercado'.

Efectivamente é muito chato quando os pressupostos económico-financeiros dos projectos são ignorados olimpicamente pelos clientes, pelos mercados, que insistem em trilhar caminhos que não são os teorizados pelos experts.

A sugestão-desejo não é inovadora. No plano declarativo já tinha sido expressa e, no plano pratico, foi experimentado, por exemplo, há umas duas décadas na Ática, a região de Atenas, na Grécia, com dúbios resultados. Durante anos os investidores catavam um mercado artificial de pensões surradas ligadas a este ventilador criado pela política administrativa, para adquirir o número necessário de alvarás que perfizesse as camas necessárias ao novo projecto. Os resultados foram, expectavelmente, negativos e a política abandonada.

Nada como advogar um bom plano quinquenal que ponha clientes e mercados nos eixos e acabe com as suas veleidades anti pressupostos financeiros!

Muitas equações na economia como na vida, seriam bem mais fáceis se nos fosse permitido fixar as suas variáveis.

Two-thirds of European hotels now offering free wifi to guests. Portugueses no fim da lista

unplugged hotels

Num recente estudo realizado sobre uma amostra de 125 000 hoteis com presença no site HRS, reconfirmou-se a importância, cada vez mais incontornável, da disponibilidade de ligações wifi nos hoteis. Como já tinhamos postado há meses, continua a haver uma (racionalmente) injustificável resistência dos hoteleiros portugueses à disponibilização (GRÁTIS) de wifi.

Parece aliás ter havido uma evolução, nos clientes nacionais em relação a estudo realizado no verão passado. Então, 21% dos Portugueses ainda declaravam estar dispostos a prescindir de wifi (antes que da TV, por exemplo) se tal fosse necessário para conseguir uma melhor tarifa.

O novo estudo coloca a Turquia e a Suécia no topo da lista dos países cujos hoteis oferecem wifi grátis aos clientes, com valores acima dos 80% e, Portugal no último lugar com pouco mais de 40% dos hoteis na mesma situação.

É verdade que há factores de competitividade que escapam ao controlo do hoteleiro… já o subdesempenho noutros tem apenas a ver com a visão e a leitura do mercado…

Empreendedorismo: para a economia real, apoio real

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No contexto social e económico, político também, que se vive no Algarve, ganha actualidade a dimensão dinamizadora dos activos, operacionalizada através de programas orientados ao empreendedorismo.

Muitos desses activos, uma sangria trágica na pool de competências em que todos investimos tanto, estão especificamente orientados ao Turismo e particularmente à Restauração e Bebidas, sector considerado de entrada mais acessível e com menos barreiras que outras possíveis alternativas no contexto da Região.

Efectivamente uma pequena unidade de R&B, pode ser a montagem possível, que combine recursos (modestos) disponíveis e competências adquiridas em percursos frequentemente ricos, pela oferta turística da Região.

O chamado Licenciamento Zero, uma das ferramentas das políticas que ficaram conhecidas por SIMPLEX, permite através duma plataforma online, cumprida a condição de dispor de alvará de autorização do edifício ou fracção, passar de imediato ao preenchimento online dum formulário electrónico disponível no Balcão do Empreendedor e, abrir, de IMEDIATO, o seu estabelecimento devidamente licenciado.

Tempo é dinheiro e caro para qualquer empreendedor. Tempo é ainda mais caro para quem dispõe de recursos muito limitados, arriscou com um fundo de maneio irrisório e se lançou ao mercado ‘sem rede’…

Acontece que, por questões que terão que ver com a plataforma tecnológica, esta funcionalidade não está disponível no Algarve.

Claro que existem outras vias, as que sempre existiram… O empreendedor, munido de toda a sua engenhosidade, ingenuidade, paciência e confiança no seu projecto e no futuro, dirige-se à Câmara Municipal onde entrega toda a documentação necessária, empurrando-a literalmente pelo esófago longo e escuro do aparelho administrativo.

A lei estabelece 10 dias para a concessão da autorização de utilização (a indispensável licença de funcionamento a que muitos ainda chamam de porta aberta). O processo estaria nesse momento, nos termos da lei, concluído e o empreendedor poderia descansadamente abrir a sua porta.

Pergunta agora o leitor “então e a vistoria?” Não tem necessariamente de haver vistoria! A lei é clara. Dentro do mesmo prazo já referido de 10 dias, o Presidente da Câmara tem a faculdade de determinar a realização de vistoria MAS, quando se verifique alguma das seguintes situações: processo mal instruído; indícios sérios, de que a obra se encontra em desconformidade com o respectivo projecto; OU existam indícios sérios de que o edifício, ou fracção autónoma, não é idóneo para o fim pretendido.

Protelar, através da utilização integral dos prazos e também da figura da vistoria, o acesso à autorização de utilização não decorre da lei. Muito pelo contrário. Apenas da falta de sensibilidade para com as necessidades da economia real ou da falta de vontade política para fazer recolher os serviços camarários ao respeito pelo primado da lei e do direito.

Casos recentes em diferentes municípios do Algarve demoraram entre 3 e 4 meses, o município insiste em enviar os seus técnicos para a realização da chamada vistoria, a ela condicionando a emissão da autorização de utilização.

3 a 4 meses (!) durante os quais o empreendedor, que não pode aguardar tanto tempo sem abrir a porta (nem em bom rigor a lei lho exige), esteve operando na ilegalidade e sujeito às trágicas e dispendiosas consequências duma visita de inspecção.

 Desta reflexão gostaria de ressaltar dois aspectos:

1. intolerável atraso do alargamento da plataforma do Licenciamento Zero ao Algarve (que num outro contexto e num outro blog mereceria a classificação de discriminatória para a Região)

2. lamentável que, enquanto a nível central a questão tão tem o necessário tratamento, as autarquias não se invistam da sensibilidade proactiva, não para uma situação de favor e excepção, mas tão só, para o cumprimento da lei.

 Às vezes promover a criação de emprego e acarinhar a economia real é até bem simples…

N. do A.: Ponderei bem antes de escrever este blog. Fiz um exame de consciência. Tenho a certeza que traga o futuro o que trouxer, não vou pensar em requerer o licenciamento de um estabelecimento de restauração e bebidas na Região 😉

Como o recurso sistemático ao upselling fere a qualidade da experiência do cliente

Cada vez mais empresas, principalmente no sector da restauração, optam por apresentar/publicitar um produto base a um preço extremamente competitivo. Diríamos que é normal, lógico e uma avisada e inteligente estratégia.

O que é pois o upselling? É uma técnica de venda que permite ao vendedor levar o cliente a ‘subir na gama de produtos’, adquirindo um produto mais caro do que aquele que previra inicialmente. O resultado será um aumento do volume de vendas e um aumento da margem.

Num electrodoméstico a técnica concretiza-se pela aquisição dum modelo (percepcionado) com mais funcionalidades ou pela aquisição duma garantia extra ou mais extensa.

A técnica não tem nada de novo e é perfeitamente justificável em determinados contextos.

Na restauração, onde os ‘menus do dia’ tão divulgados em muito países da europa, só agora começam a fazer a sua entrada no mercado, generalizou-se o ‘prato’.

Principalmente na restauração industrial ou rápida, o ‘prato’ é objecto de destaque publicitário e graças ao seu posicionamento ao nível do preço torna-se rapidamente um produto de apelo, um produto estrela. Só que, o pessoal está formado para um upselling inquisitivo e assertivo, bombardeando o cliente com sucessivas questões (propostas de aquisição de complementos) que, têm o dom de tornar a experiência plástica e desagradável.

Plástica, porque é evidente que o vendedor tem uma ‘agenda’ e um guião. Não há naturalidade, não há verdadeiro atendimento.

Desagradável, porque a partir duma premissa inicial simples e simpática, o cliente é ‘forçado’ a reflectir (mais do que desejaria) sobre as ‘características’ do produto e cedo se dá conta de que o tal preço apelativo já desapareceu, submergido em custosos extras que o cliente não tinha previsto e cuja bondade questionará, confrontado com a diferença entre o preço de apelo e o preço ‘real’.

Bom atendimento, empatia e uma interacção correcta com o cliente é sempre uma vantagem e sempre bem-vindo. Uma linha de questionamento maçadora e interesseira é dispensável e arruína o elemento prazeroso que deve ser timbre de qualquer venda em restauração. Urge que estas estratégias sejam revistas e reflectidas na formação do pessoal.

a ferro e fogo

Hoje vou fazer uma coisa inovadora (para mim!), vou escrever sobre um tema que desconheço…vou alinhavar aquilo que o mundo anglófono chama umas ‘educated guesses’…

Nos últimos anos a actividade da restauração foi carregada com um conjunto (que inicialmente pensei desproporcionado) de exigências em matéria de segurança contra incêndios. Mas como não disponho das competências técnicas para avaliar a bondade dessas exigências, calei-me, submetendo-me ao argumento brutal da segurança das pessoas e bens.

Estou a exagerar?

Vejamos: desde a publicação em 2007 do DL 234, aparentemente mais simples que o anterior, só porque despojado dum conjunto significativo de normas e exigências que passaram para as Câmaras Municipais por via do RJUE (Regulamento Jurídico da Urbanização e da Edificação), que passou a ser necessário que o promotor, quer duma abertura quer duma modificação, como condição prévia à emissão da licença ou autorização de utilização, remeta à Câmara Municipal respectiva, entre (muitos) outros documentos, um termo de responsabilidade subscrito pelo autor do projecto de segurança contra incêndios.

É daqui que nasce aquela obrigação curiosa que já todos testemunhámos de afixar uma planta de evacuação na parede da sala de chá com 20 metros quadrados e uma porta (!).

Parece simples?

Mas implica o cumprimento escrupuloso das principais disposições constantes do Regulamento Técnico de SCIE (Segurança contra Incêndios em Edifícios), ou seja…

Hidrantes exteriores (condições exteriores)* –de acordo com a NP EN 14384 (art. 12º)

Portas resistentes ao fogo e dispositivos de fecho e retenção* – (art. 34º e 36º)

Sinalização – (Decreto-lei 141/95, Lei 113/99, Portaria nº 1456-A/95 e art. 108º – 112º da Portaria nº 1532/2008)

Iluminação de emergência* – (art. 113º – 115º)

Sistemas de detecção, alarme e alerta* – (art. 116º – 132º e 270º ) – Devem ser dotados de instalações de alarme da configuração 3, com excepção dos edifícios da 1ª categoria de risco, que podem ser dotados de um sistema de alarme da configuração 1, e dos edifícios da 1ª categoria de risco exclusivamente acima do solo, que podem ser dotados de sistemas de alarme da configuração 2

Controlo de fumo* – (art. 133º – 161º) • Exutores – devem estar de acordo com a Norma EN 12101-2

Extintores* – devem estar de acordo com as Normas NP EN 3, NP EN 1866 e NP 4413 (art. 163º)

Bocas de incêndio do tipo carretel* – devem estar de acordo com a NP EN 671-1 (art 164º – 167º)

Redes secas e húmidas* – (art 168º – 171º e 257º) Redes húmidas, a partir da 3.ª categoria de risco, devendo ser do tipo homologado

Sistemas fixos de extinção automática de incêndios* – (art. 172º-176º) – Por água / sprinklers (art. 173º – 174º), a partir da 2.ª categoria de risco

Sistemas automáticos de detecção de gás combustível* – (art. 184º e 185º)

O leitor já está incomodado com o detalhe? Pode passar aos finalmentes..sem perder o fio à meada…

Sistemas de Protecção Passiva:

Limitações à propagação do incêndio pelo exterior – (art. 7º – 10º)

Condições gerais de comportamento ao fogo, isolamento e protecção – Critérios de segurança –(art. 14º)

Resistência ao fogo de elementos estruturais e incorporados – (Anexo II do Decreto-lei nº 220/2008 e art. 15º e 16º da Portaria nº 1532/2008)

Compartimentação geral de fogo – (art.17º – 19º)

Isolamento e protecção de: • Locais de risco – (art. 20º – 24º) • Vias de evacuação – (art. 25º – 28º) • Canalizações e condutas – (art. 29º – 33º)

Protecção de vãos interiores: • Portas resistentes ao fogo* – (art. 34º) • Câmaras corta-fogo – (art.35º) • Dispositivos de fecho e retenção das portas resistentes ao fogo* – (art. 36º)

Reacção ao fogo – (Anexo I do Decreto-lei nº 20/2008 e art. 38º – 49º da Portaria nº 1532/2008)

Portas de emergência* – (art. 62º)

Dimensionamento de câmaras corta-fogo –(art. 63º)

Condutas de evacuação de efluentes de combustão*– (art. 92º e 93º)

Ventilação e condicionamento de ar* – (art. 94º -100º)

Controlo de fumo* – (art. 133º – 161º )

Estes equipamentos e sistemas devem ser submetidos a procedimentos de manutenção/inspecção com uma periodicidade mínima anual.

O leitor ainda resiste? Não esqueça que pode passar aos finalmentes..

DEVE:

. Nomear um responsável e um substituto pela segurança contra incêndios

. Verificar a manutenção das condições de acesso dos meios externos, estacionamento e entradas

. Informar as entidades competentes da eventual inoperacionalidade das bocas de incêndio exteriores, embora a sua conservação não seja da sua responsabilidade

. Garantir o desimpedimento das vias de evacuação

. Garantir o acesso livre aos meios de 1ª e 2ª intervenções, assim como aos comandos das betoneiras de alarme

. Reforçar a vigilância dos locais de maior risco e menos ocupação humana

. Garantir uma limpeza adequada e uma correcta arrumação de produtos e mobiliário

. Promover formação adequada para todos os trabalhadores do estabelecimento na área de Segurança Contra Riscos de Incêndio e Socorrismo

. Garantir a verificação dos equipamentos de 1ª intervenção

. Garantir a manutenção dos equipamentos de Detecção, Iluminação, e 1ª Intervenção por técnicos qualificados

. Garantir a manutenção de equipamentos eléctricos e respectiva instalação por técnicos qualificados

. Garantir a manutenção de instalações de Gás por técnicos qualificados

. Verificar a visibilidade da sinalética de segurança

Obrigado ao leitor que chegou até aqui pela simpatia e perseverança!

Os finalmentes

Se o promotor de um, já agora para simplificação, pequeno ou médio estabelecimento de restauração ou bebidas, precisa cumprir com estas ‘tábuas da lei’, com os custos em termos de equipamentos, instalação, assessoria, manutenção e formação, que pode imaginar, naturalmente que estruturas mais complexas, têm justamente objectivos mais complexos e sofisticados.

Há três dias, na cidade turística de Portimão, durante a madrugada, uma gigantesca nave comercial, relativamente recente e cumprindo, tenho que presumir, com todas as regras e regulamentos, ficou, em algumas horas no estado apocalíptico que a imagem testemunha.

Pergunto então, esta regulamentação é a necessária e suficiente (e como é que não sobrou nada do retail park?) .

Esta regulamentação não é a suficiente (e então o que mais exigiremos ao promotor dum estabelecimento de restauração e bebidas?)

ou não será que, como em tantas outras áreas, a regulamentação ganhou uma vida própria instilada, neste caso, por uma já instalada indústria de equipamentos e serviços de segurança contra incêndios?

Não traz mal à economia acrescentar serviços (valor) a montante da cadeia de produção. Mas se o valor que esses serviços acrescentarem for negativo, retira competitividade à economia (ao sector) e tudo fica desnecessariamente onerado, administrativa e financeiramente.

Seria bom fazer aqui uma reflexão enquanto ainda há promotores e estabelecimentos de restauração e bebidas.